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Blog da Eide


Imagens inabitadas - Impressões sobre A pele que habito

Um dos atrativos mais fortes que tinham os filmes de Almodovar para mim era a atração que provocavam por personagens perturbados, ou então que expressavam uma sexualidade fora das definições convencionais do feminino e do masculino, e que confundiam os signos dos gêneros, numa combinação que podia ser sentida como libertadora, ainda por quem não tinha nessa questão um ponto de preocupação existencial. Isso porque os personagens apareciam na tela com uma intensidade humana tal que mesmo a sensibilidade mais embotada ou preconceituosa teria, imagino, dificuldade para não se comover.

Não é o que acontece no último filme do diretor, A pele que habito.  O filme me deixou com uma sensação de decepção. Eu me senti muitas vezes levada ao limiar de uma emoção, sem que pudesse nela adentrar. A frustração da expectativa em relação às intensidades é acompanhada por um  desconforto, pela manipulação dos signos mais concretos dos gêneros, pelo ultracompetente Robert. A combinação de signos dos diferentes gêneros não acontece no íntimo de um personagem humano. É externa e violenta, resultante de uma vingança fria, esterilizada pelos poderosos e muito eficazes recursos manipulatórios do cirurgião.

Esse personagem, que ostenta sucesso na riqueza e refinamento dos objetos com que convive, é  profundamente derrotado na relação com a mulher e com a filha. Parece se opor ao fracasso com recursos que mais o confirmam. Expõe-se na tela como um personagem descarnado (talvez esteja aí, e não onde imaginamos, o sentido do título), frio. Expressaria ele o esvaziamento criativo do diretor, que na falta dos densos personagens de outrora vê-se na contingência de manipular com maestria recursos cinematográficos que distraem e encantam os olhos, mas que não atingem o nosso íntimo? Seriam as artes manipulatórias de Robert uma figuração dos recursos do cinema, que tomados em si mesmos seriam apenas meios de criar um mundo artificial, sem vida, a despeito de imitá-la?



Escrito por Escrito por Eide às 19h05
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