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Aos valiosos tradutores
Há pouco tempo escrevi aqui um parágrafo a respeito do blog de Denise Bottmann. A descoberta daquele espaço foi algo muito emocionante para mim, pois até então só tinha visto o nome da tradutora nas folhas de rosto de livros preciosos, traduções de obras estrangeiras que se tornaram referências importantes em minha trajetória. De repente, a internet me facultava o acesso a textos da própria Denise! Desde aquele momento venho pensando em fazer um texto (pequeno, que seja) sobre a grandeza dos bons tradutores. Porque a descoberta trouxe ao primeiro plano de minha mente algo que estava no fundo, e bem estabelecido: o reconhecimento por essas pessoas que, com sua competência, nos dão acesso a obras fundamentais de autores estrangeiros, ajudando-nos em nosso trabalho e em nosso viver. Lembro-me de que nas aulas da minha graduação em Ciências Sociais era comum ouvir alertas dos professores a respeito de más traduções de obras clássicas. Havia até recorrente repetição – meio pedante, às vezes parecia – do dito “traduzir é trair”, antes da constatação da impossibilidade de seguir em frente sem as traduções, consideradas, então, males necessários. Pouquíssimos e tímidos foram os comentários a respeito da qualidade de traduções a que tínhamos acesso. Talvez por rigor. Afinal, não se fazia cotejamento da tradução com o original, para saber da fidelidade da versão. Mas em tais atitudes talvez residisse uma exigência um tanto arrogante, resultante talvez da vontade de que o autor original escrevesse na nossa própria língua, igualando-se a nós e eliminando as barreiras que nos dificultavam o acesso a seus pensamentos. Acho que não é indispensável, para confiarmos numa tradução, o cotejo com o original. Com a experiência de leitura e releitura, é possível notar a seriedade do trabalho realizado, mesmo sem fazer a comparação. Podemos sentir, nas frases que lemos, o esforço, a competência e a honestidade de quem traduziu. Se nos abrirmos para notar esse trabalho, um irreprimível sentimento de gratidão se forma em nosso espírito, pelo acesso que nos é facultado a conteúdos de outro modo inalcançáveis. Digo isto pensando, além de em Denise Bottmann - que verteu, entre outros, o muito reverenciável historiador E. P. Thompson - em nomes de outros tradutores de textos de autores estrangeiros que foram marcos em minha formação, e que se tornaram referências basilares para mim. Menciono particularmente três deles, pela importância e pela beleza dos textos traduzidos: Roberto Raposo (tradutor de A condição humana, da Hannah Arendt), Sérgio Paulo Rouanet (de textos de Walter Benjamin, com destaques para: “Experiência e pobreza”, “O narrador” e “Sobre o conceito de história”) e Therezinha G. G. Langlada (tradutora de A condição operária e outros estudos sobre a opressão, coletânea de textos de Simone Weil organizada por Ecléa Bosi). Transcrevo a seguir pequenas passagens desses textos que me são muito caros, em homenagem aos tradutores. Da tradução de A condição operária e outros estudos sobre a opressão, por Therezinha G. G. Langlada: “Existe uma condição social inteira e continuamente presa ao dinheiro, que é a do assalariado, sobretudo desde que o salário por empreitada obriga cada operário a ter sua atenção sempre voltada para a contagem dos tostões. Nessa condição social é que a doença do desenraizamento é mais aguda. Bernanos escreveu que nossos operários não são, apesar de tudo, imigrantes, como os de M. Ford. A principal dificuldade social da nossa época vem do fato de que eles o são, em um certo sentido. Embora geograficamente permanecendo num local, moralmente foram desenraizados, exilados e readmitidos, por tolerância, como carne de trabalho. O desemprego, é claro, funciona como um desenraizamento de segundo grau. Eles não estão em suas casas nem nas fábricas nem nas suas moradas, nem nos partidos e sindicatos – que se dizem feitos para eles – nem nos lugares de prazer, nem na cultura intelectual, se tentarem assimilá-la. Pois o segundo fato de desenraizamento é a instrução, tal como é entendida hoje. O Renascimento provocou por toda parte um corte entre a gente culta e a massa; mas, separando a cultura da tradição nacional, pelo menos a mergulhava na tradição grega. Depois disso, os laços com as tradições nacionais não foram renovados, mas a Grécia foi esquecida. Resultou uma cultura que se desenvolveu num meio muito restrito, separado do mundo, numa atmosfera confinada, uma cultura consideravelmente orientada para a técnica e influenciada por ela, muito tingida de pragmatismo, extremamente fragmentada pela especialização, completamente desprovida ao mesmo tempo de contato com este nosso universo e de abertura para o outro mundo. (...) O que hoje se chama de instruir as massas é pegar esta cultura moderna elaborada num meio tão fechado, tão deteriorado, tão indiferente à verdade, tirar dele tudo o que ainda pode conter de ouro puro, operação que se chama divulgação, e enfiar o resíduo, do jeito que está, na memória dos infelizes que querem aprender, como se leva a comida ao bico dos passarinhos.” “Seria vão voltar as costas ao passado para só pensar no futuro. É uma ilusão perigosa acreditar que haja aí uma possibilidade. A oposição entre o futuro e o passado é absurda. O futuro não nos traz nada, não nos dá nada; nós é que, para construí-lo, devemos dar-lhe tudo, dar-lhe nossa própria vida. Mas para dar é preciso ter, e não temos outra vida, outra seiva a não ser os tesouros herdados do passado e digeridos, assimilados, recriados por nós. De todas as necessidades da alma humana não há outra mais vital que o passado.” (p. 349-350 e p. 353-354, respectivamente, da primeira edição, feita pela Paz e Terra em 1979) Da tradução de A condição humana, feita por Roberto Raposo: “Dada a sua suma permanência, as obras de arte são as mais intensamente mundanas de todas as coisas tangíveis; sua durabilidade permanece quase isenta ao efeito corrosivo dos processos naturais, uma vez que não estão sujeitas ao uso por criaturas vivas – uso que, na verdade, longe de materializar sua finalidade inerente (como a finalidade de uma cadeira é realizada quando alguém se senta nela), só pode destruí-la. Assim, a durabilidade das obras de arte é superior àquela de que todas as coisas precisam para existir; e, através do tempo, pode atingir a permanência. Nesta permanência, a estabilidade do artifício humano, que jamais pode ser absoluta por ser o mundo habitado e usado por mortais, adquire representação própria. Nada como a obra de arte demonstra com tamanha clareza e pureza a simples durabilidade deste mundo de coisas; nada revela de forma tão espetacular que este mundo feito de coisas é o lar não-mortal de seres mortais. É como se a estabilidade humana transparecesse na permanência da arte, de sorte que certo pressentimento de imortalidade – não a imortalidade da alma ou da vida, mas de algo imortal feito por mãos mortais – adquire presença tangível para fulgurar e ser visto, soar e ser escutado, escrever e ser lido.” (p. 181, da 4ª edição, feita pela Forense Universitária, do Rio de Janeiro, em 1989. Destaque feito por mim.) Da tradução de “Experiência e pobreza”, por Sérgio Paulo Rouanet: “Em nossos livros de leitura havia a parábola de um velho que no momento da morte revela a seus filhos a existência de um tesouro enterrado em seus vinhedos. Os filhos cavam, mas não descobrem qualquer vestígio do tesouro. Com a chegada do outono, as vinhas produzem mais que qualquer outra na região. Só então compreenderam que o pai lhes havia transmitido uma certa experiência: a felicidade não está no ouro, mas no trabalho. Tais experiências nos foram transmitidas, de modo benevolente ou ameaçador, à medida que crescíamos: ‘Ele é muito jovem, em breve poderá compreender’. Ou: ‘Um dia ainda compreenderá’. Sabia-se exatamente o significado da experiência: ela sempre fora comunicada aos jovens. De forma concisa, com a autoridade da velhice, em provérbios; de forma prolixa, com a sua loquacidade, em histórias; muitas vezes como narrativas de países longínquos, diante da lareira, contadas a pais e netos. Que foi feito de tudo isso? Quem encontra ainda pessoas que saibam contar histórias como elas devem ser contadas? Que moribundos dizem hoje palavras tão duráveis que possam ser transmitidas como um anel, de geração em geração? Quem é ajudado, hoje, por um provérbio oportuno? Quem tentará, sequer, lidar com a juventude invocando sua experiência? Não, está claro que as ações da experiência estão em baixa, e isso numa geração que entre 1914 e 1918 viveu uma das mais terríveis experiências da história. Talvez isso não seja tão estranho como parece. Na época, já se podia notar que os combatentes tinham voltado silenciosos do campo de batalha. Mais pobres em experiências comunicáveis, e não mais ricos. Os livros de guerra que inundaram o mercado literário nos dez anos seguintes não continham experiências transmissíveis de boa em boca. Não, o fenômeno não é estranho. Porque nunca houve experiências mais radicalmente desmoralizadas que a experiência estratégica pela guerra de trincheiras, a experiência econômica pela inflação, a experiência do corpo pela fome, a experiência moral pelos governantes. Uma geração que ainda fora à escola, num bonde puxado por cavalos viu-se abandonada, sem teto, numa paisagem diferente em tudo, exceto nas nuvens, e em cujo centro, num campo de forças de correntes e explosões destruidoras, estava o frágil e minúsculo corpo humano.” (p. 114-115, do vol. 1 das Obras escolhidas de Walter Benjamin, editadas pela Brasiliense, em 1987)
Escrito por Escrito por Eide às 11h10
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