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Blog da Eide


Guerra ao plágio: Denise Bottmann e as "(anti)referências bibliográficas"

Ontem, tive uma excelente informação. A tradutora Denise Bottmann está fazendo uma cruzada contra o plágio, por meio de seu blog "não gosto de plágio". Mas a notícia vem acompanhada de uma preocupação: tem sido movido um proceso contra ela, pela Landmark, editora denunciada, que pede a retirada do blog do ar. Está aí um assunto que merece mobilização. Além de informações sobre o processo, no blog se encontram textos que são verdadeiras pérolas.  Entre as jóias, estão as "(anti)referências bibliográficas" - uma lista das edições fraudulenas de maravilhas do pensamento e da literatura universais. A "Hall of shame" se encontra aqui:

http://naogostodeplagio.blogspot.com/2009/12/antireferencias-bibliograficas.html



Escrito por Escrito por Eide às 11h50
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Para ninar, Leonard Cohen

Muito me têm comovido imagens de apresentações de Leonard Cohen.

Eu comecei a ouvir suas canções quando morei sozinha pela primeira vez, numa cidade em que não tinha nenhum amigo ou parente. Vivi na época uma ansiedade muito, muito intensa. Não conseguia me sentir muito bem nem na minha própria casa, naquele lugar em que não conhecia ninguém. (Naquele tempo, as comunicações interurbanas eram mais difíceis, porque não tinha internet, e demorava bastante pra gente conseguir uma linha telefônica. Então, pra falar com meus amigos de fora, por um certo tempo, foi só por carta ou no orelhão, na rua!) Nessa época é que um dos colegas de trabalho mais disponíveis pra conversar me emprestou a coletânea The best of Leonard Cohen.

 

Quando ouvi o cd, vivi algo simplesmente sublime: toda a ansiedade passou, e, pela primeira vez em meses, pude serenar completamente e me sentir em casa.  Foi um momento realmente muito marcante pra mim. E esse apaziguamento eu tinha como experiência muito particular, no contato com algumas das melhores obras do bardo canadense.  Mas recentemente tive conhecimento de que algo equivalente já tinha acontecido antes, em proporções infinitamente maiores, porque com muito mais gente, e ao mesmo tempo.

 

Soube por intermédio de um pequeno texto publicado na Veja (eu sei, podem dizer “azar o seu”, mas foi lá que li), noticiando o lançamento de cd/dvd (Leonard Cohen – Live at th isle of Wight, 1970) com a apresentação feita por Cohen num Festival que aconteceu na Ilha de Wight, na Inglaterra, em 1970. O texto informava que com sua performance Cohen tinha conseguido aplacar a fúria de uma platéia ameaçadora...

 

Depois de adquirir o meu exemplar, vejo que há um belo encarte, com fotos do Cohen aos 36 anos e tudo...  E um texto assinado por Sylvie Simmons informa que o público era constituído de 600.000 pessoas (a organização previra 150.000 ou 200.000), a maior parte das quais não se dispunha a pagar, argumentando com o “idealismo da música” contra o “comercialismo” da cobrança de ingresso. Mesmo depois da organização do festival abrir mão do pagamento, por conta de perceber que não havia o que fazer, a situação continuou muito tensa e ameaçadora, com pessoas jogando garrafas e começando a pôr fogo no palco.  Joan Baez, “veterana do movimento de protesto”, se ofereceu para tentar acalmar o público, mas não obteve êxito. Murray Lerner, documentarista que gravou a performance, conta, ainda no encarte,  que ficou realmente preocupado, “porque conheço o poder de uma multidão e como a qualquer momento ela pode explodir! Eu pensei, é isto, é o nosso fim, e empacotei todo o meu equipamento. Mas eu decidi ficar, e estava muito excitado, nunca experimentei nada parecido, nem antes nem depois”.

Nesse clima todo, Cohen nem se preocupou, segundo Bob Johnston, seu produtor (o mesmo de Bob Dylan, Simon & Garfunkel e Johnny Cash) e Kris Kristofferson, dos quais o dvd apresenta belas partes de depoimentos que deram a respeito do acontecimento.

 

Numa nota do encarte, o diretor Lerner nos expõe uma explicação que imaginou para o feito que o hipnotizou: a habilidade com que Cohen traria poesia para dentro da música. Essa combinação é que teria cativado a audiência até então enfurecida. Pode ser. Mas não acredito que isso que Lerner chama de “habilidade” tenha a ver principalmente com técnica. Como diz Judy Collins, em entrevista do dvd, quem ouve o poeta/músico com atenção recebe “algo muito raro”. E esse “algo’, penso eu, está na substância da poesia e da música de Cohen.  O que haveria nessa combinação, de características tão apaziguantes? Qual seria a substância trabalhada por essa “habilidade” tão singular? Em que consistiria? Pensando nisso outro dia, me veio à mente que o próprio Cohen declarou que sofreu por muito tempo, por conta da morte do seu pai, que aconteceu quando tinha apenas 9 anos de idade. Imagino que possa vir daí a substância com que trabalha a genialidade da sua criação: o intenso esforço mental para lidar com uma perda irreparável, como a que sofreu. Talvez daí, dessa experiência da dor da falta incontornável de alguém essencial, e da sua lenta superação, é que ele nos traga as canções com que nos acompanha de modo tão benfazejo. Talvez daí é que possam ter brotado, no terreno prodigioso de sua mente, as canções que sossegam o órfão que cada um de nós tem dentro de si.

 

Neste link, a inesquecível interpretação de Suzanne na Ilha de Wight: http://www.youtube.com/watch?v=LPYk94eoEhg



Escrito por Escrito por Eide às 19h03
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