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Blog da Eide


Imagens inabitadas - Impressões sobre A pele que habito

Um dos atrativos mais fortes que tinham os filmes de Almodovar para mim era a atração que provocavam por personagens perturbados, ou então que expressavam uma sexualidade fora das definições convencionais do feminino e do masculino, e que confundiam os signos dos gêneros, numa combinação que podia ser sentida como libertadora, ainda por quem não tinha nessa questão um ponto de preocupação existencial. Isso porque os personagens apareciam na tela com uma intensidade humana tal que mesmo a sensibilidade mais embotada ou preconceituosa teria, imagino, dificuldade para não se comover.

Não é o que acontece no último filme do diretor, A pele que habito.  O filme me deixou com uma sensação de decepção. Eu me senti muitas vezes levada ao limiar de uma emoção, sem que pudesse nela adentrar. A frustração da expectativa em relação às intensidades é acompanhada por um  desconforto, pela manipulação dos signos mais concretos dos gêneros, pelo ultracompetente Robert. A combinação de signos dos diferentes gêneros não acontece no íntimo de um personagem humano. É externa e violenta, resultante de uma vingança fria, esterilizada pelos poderosos e muito eficazes recursos manipulatórios do cirurgião.

Esse personagem, que ostenta sucesso na riqueza e refinamento dos objetos com que convive, é  profundamente derrotado na relação com a mulher e com a filha. Parece se opor ao fracasso com recursos que mais o confirmam. Expõe-se na tela como um personagem descarnado (talvez esteja aí, e não onde imaginamos, o sentido do título), frio. Expressaria ele o esvaziamento criativo do diretor, que na falta dos densos personagens de outrora vê-se na contingência de manipular com maestria recursos cinematográficos que distraem e encantam os olhos, mas que não atingem o nosso íntimo? Seriam as artes manipulatórias de Robert uma figuração dos recursos do cinema, que tomados em si mesmos seriam apenas meios de criar um mundo artificial, sem vida, a despeito de imitá-la?



Escrito por Escrito por Eide às 19h05
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"OK?"

Poucas foram as vezes em que me relacionei de algum modo com pessoas que gostam de finalizar suas frases com a expressão “ok”, como tom de interrogação: “ok?”  E talvez nunca tenha mesmo me comunicado com alguém que usasse tão recorrentemente essa forma de expressão quanto um antigo conhecido, que reencontrei recentemente, e com quem estabeleci correspondência por algumas semanas consecutivas. Eu não contei, mas acho que a cada duas frases vinha a finalização “ok?”. Senti-me inicialmente desconfortável, mas com a repetição fiquei quase aterrorizada.  Talvez a recorrência tenha me feito sentir com intensidade algo que também se faça presente no uso mais intermitente desse recurso, em que seus efeitos ficam mais dissolvidos.

Com a repetição, eu fiquei com a impressão de que a pessoa com quem me correspondia me dizia insistentemente: “cale a boca”. Sim, porque a expressão parece delimitar os limites do que deve ser comunicado. É como se a pessoa que fala não esperasse um retorno do seu interlocutor, com indagações, desenvolvimentos de argumentos, ou qualquer outra coisa que significasse uma intervenção ativa no diálogo. Ela age como se a comunicação fosse algo linear, com ponto de partida no emissor, que definiria todo o conteúdo da fala. “OK?” – isto é, “entendeu?” ou “ouviu?”, perguntas que sobrevalorizam o que está sendo dito, e colocam o interlocutor numa posição de quem é apenas receptáculo, e não agente da comunicação.

A partir do meu incômodo, fiquei imaginando o motivo para a utilização desse recurso. Talvez seja algo de que se lança mão por medo da insegurança trazida pela situação de comunicação em que as partes envolvidas estejam livres para se expressar. Numa situação assim, a posição de ninguém é segura. Por mais que haja assimetrias entre as partes envolvidas, a abertura para a fala do outro é sempre algo que nos coloca frente ao indeterminado. Nossas certezas e seguranças perdem sua fixidez, e somos lançados num fluxo indefinido, impossível de dominar.

Diante disso, talvez o medo mostre como recurso mais fácil o fechamento dos canais de comunicação efetiva e o estabelecimento de uma via de mão única.  Para isso, me parece, muitas vezes serve o “OK?” Para empurrar o interlocutor para um ponto de inércia, onde ele não se sinta em condições de formular um argumento contrário, uma observação, ou sequer uma pergunta. Para, então, empurrar o interlocutor para uma posição em que, estando ele vivo, se comporte como um morto.



Escrito por Escrito por Eide às 23h51
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Aspas fazem toda a diferença

Se fosse ver pelo tamanho, as aspas seriam algo insignificante em um texto. Mas elas são valiosas, todos sabemos. E quanto mais lido com textos mais me faço profundamente reconhecida pelo valor delas.

Mas tenho a impressão de que o uso mais comum que tem sido feito delas deturpa a sua serventia, implicando num resultado que é o oposto do obtido com a utilização mais tradicional. Usam-se muito as aspas, até (ou principalmente) em discursos orais, para suavizar o sentido de uma palavra ou expressão, de modo que quem ouve ou lê fica sabendo que o autor não está querendo dizer exatamente o que aquela palavra costuma dizer. O problema é que, deste modo, como saber qual é o sentido cuja expressão é desejado? O leitor ou ouvinte é lançado numa certa indefinição, que contribui mais para a confusão do que para a clareza da comunicação. Tudo bem que a linguagem não é algo de precisão matemática. Nem penso que isso seja desejável. Mas a comunicação efetiva implica que se busque o máximo possível de explicitação do que se está querendo dizer. Tornar impreciso o sentido de uma expressão só dificulta essa explicitação.

Já o uso mais tradicional das aspas tem uma finalidade justamente contrária. Contribui para a absoluta clareza quanto à autoria de textos e palavras expressas em determinados contextos. Se, numa redação em que exponho o pensamento de um autor, tenho cuidado de colocar todos os termos próprios dele entre aspas, sinalizo com clareza o que é meu e o que é do outro, deixando claro para todos quem pensa o quê. As aspas nos lembram sempre que pensamentos têm autoria. Que é preciso distinguir de onde vieram as idéias. E que podemos também ser autores de nossas próprias, sem nos apropriarmos inadvertidamente (e indevidamente, às vezes) de formulações e noções impensadas.  Elas nos ajudam a não nos confundir com os autores que lemos. Contribuem para sinalizar bem a noção de separação de mentes, sem a qual qualquer busca de autonomia fica comprometida.



Escrito por Escrito por Eide às 19h12
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Lanternas vermelhas

No último feriado, vi Lanternas vermelhas, dirigido por Zhang Yimou , lançado em 1991. É fascinante o modo como, conjugando poucos e aparentemente simples elementos, o filme nos conduz por uma emaranhada trama de desejo, ciúme, inveja, ódio, tirania e desprezo. Com maravilhosas interpretações das atrizes, nos apresenta uma fábula da situação do sujeito que não tem saída a não ser submeter-se ao desejo do outro. De tal maneira que essa submissão passa a carregar o próprio sentido da vida. Para além das situações individuais que possamos evocar, penso que podemos encontrar aí uma potente expressão de algo que, de uma outra maneira, é constitutivo do nosso tempo. Com a ameaça sempre presente do desemprego, fonte de agruras econômicas e também morais, parecem cada vez mais enfraquecidos os discursos em prol de um mundo diferente do da opressão capitalista. Parece que, a cada dia mais, submeter-se às exigências de um outro - exigências de disciplina e de altos índices de produtividade e de consumo -  tornou-se sinônimo de viver. Fora disso, o que é a nossa existência social? Quem de nós alcança um sentido que não esteja tragado na voragem desses ditames do capital?



Escrito por Escrito por Eide às 00h18
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Sobre "preencher uma lacuna"

Um dia destes lancei no facebook a afirmação de que esperava que ninguém nunca falasse, sobre algum trabalho meu, que ele vem “preencher uma lacuna”. E completei dizendo que a única lacuna que esperava preencher era a minha cova, quando morresse. Acho que fui um pouco grosseira, e devo ter parecido bem arrogante. Mas é que eu, que não costumo gostar de provocações, estava fazendo uma.

Reparo nessa formulação “preencher uma lacuna” desde 1989, quando um inspirado professor de Sociologia, tratando das duas primeiras lições do Curso de Filosofia Positiva, do Comte, sublinhou-a na leitura de um trecho em que o autor diz que a ciência dos fenômenos sociais viria “preencher uma lacuna” no “sistema das ciências positivas”. Lembro-me que o professor chamou a atenção para a repetição dessa expressão nas falas e nos textos daquele tempo, mesmo de quem desprezava ou se dizia opositor do positivismo. Essa observação ficou bem registrada na minha memória, e tenho reparado como, entra década e sai década, as pessoas continuam repetindo a fórmula comtiana. Mas acho que só recentemente pude atinar para o sentido dessa repetição, para as implicações que ela carrega.

Comprei e li um livro cuja publicação é para mim um acontecimento extraordinário. Reunião de textos fascinantes, em que pude fazer muitas descobertas e também me encantar com a arte ali presente. Depois que li, fui em busca, nos meus guardados, de uma resenha que eu lembrava de ter lido. Reli. E lá estava: o livro tal vem “preencher uma lacuna”...  Fiquei pasma. Como assim? Como pôde o autor da resenha estar diante de um livro desses, e dizer que ele vem fazer só esse servicinho costumeiro?

Foi nesse momento que pude captar o sentido da expressão de maneira mais densa. O preenchimento de uma lacuna não significa mais do que o tapamento de um buraco. E tapar buraco, na sábia fala popular, é só remendar algo já pronto. Não significa criar nada de efetivamente novo, nem causar nenhum encantamento singular, pela inteligência ou beleza. A expressão supõe que haja uma ordem razoável na realidade (no caso, no conhecimento), e que isso deve ser assim, que o essencial já está consolidado e não merece ser abalado. E que o máximo que alguém pode fazer com alguma obra é “preencher uma lacuna”. 

Isso não parece coisa para um espírito vivo fazer. E por essa razão é que não me parece algo muito apreciável o “preencher lacunas”. Mais interessante é a abertura delas, causando perturbação e abrindo o horizonte para a criação.

 



Escrito por Escrito por Eide às 17h59
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O Rei Morte de Rossellini

O filme de Rossellini sobre Luís XIV (A tomada do poder por Luís XIV) que foi lançado recentemente em dvd (com o título Absolutismo – A ascensão de Luís XIV) é desconcertante. Liguei o aparelho pensando que fosse ver uma produção com pelo menos alguns toques de esplendor, de brilho ofuscante, tendo em vista tratar da tomada do poder pelo rei que freqüenta a nossa imaginação como o Rei Sol, símbolo esplendoroso do poder das monarquias absolutas.

Pois o que encontramos no disco é algo que, de início, parece totalmente oposto. O filme tem um clima funéreo. As grandezas que se costumam atribuir ao reinado mais famoso aparecem de maneira opaca, sombria, angustiante. Uma pista para o motivo disso encontramos na frase de La Rochefoucauld que o rei, num aposento reservado, lê para si, em voz alta: “Nem o sol nem a morte se podem olhar fixamente.”

Ao ouvir estas palavras, descobrimos que não há oposição entre uma coisa e outra. O brilho solar do poder que se constitui com Luís XIV é gêmeo do escuro da Morte.

Não é por acaso que, ao abrir-se a porta do quarto quase escuro em que morre o cardeal Mazarin, no começo do filme, projeta-se sobre os empregados que faziam vigília na antecâmara uma forte luz de diz claro, incomodando o seu olhar. É do breu da morte que advêm os esplendores do poder.

Se, como sugere o infeliz título em português, a intenção é didática, essa é uma lição realmente muito instrutiva.



Escrito por Escrito por Eide às 20h56
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Incesto escandaloso e outros abusos

Causou horror recentemente a notícia de um caso de incesto no município de Pinheiro, no estado do Maranhão.  O pescador José Agostinho Pereira  manteve a filha em cárcere privado e a estuprou repetidamente, por 16 anos (dos 12 aos 28), tendo com ela 7 filhos. O caso se assemelha ao do austríaco Joseph Fritzl, que manteve a filha num porão por 24 anos, e com ela teve também 7 filhos. Mas se torna ainda mais apavorante tendo em vista que ocorreu entre pessoas de condições sociais precaríssimas, num contexto em que atendimento psicológico é simplesmente inexistente. O que está sendo da filha estuprada e dos filhos do incesto, depois do escândalo produzido pelas suas vidas? É difícil até imaginar.

 

Esses casos provocam assombro coletivo, imagino que não só pelo incesto e pela violência implicada no aprisionamento, mas também por conta de que esses atos foram praticados por sujeitos que estavam na posição de quem deveria cuidar, zelar pelo crescimento e desenvolvimento da autonomia das vítimas. Ao invés de se relacionar com suas filhas de modo que elas pudessem crescer e transformar-se em mulheres adultas autônomas, esses pais se apropriaram delas. Pegaram suas meninas, expostas em sua fragilidade e em seu amor filial, e as submeteram a suas próprias necessidades e desejos de machos.

 

É uma coisa horrível de pensar, sem dúvida. Que um ser humano possa chegar a esse ponto de cegueira em relação à existência do outro. Mas seria bom se a visão desse extremo de coisificação pudesse nos ajudar a olhar para casos infinitamente mais brandos, mas também muito lesivos, de submissão de jovens e crianças aos desejos e vontades dos adultos e mais velhos, em relações em que estes últimos se colocam como responsáveis por proteção e cuidados que permitam o crescimento. Penso, em primeiro lugar, nos casos de pais e mães que jamais cometeriam atrocidades como as de Pereira e Fritzl, mas que mantêm os filhos presos a si, de modo que eles se tornem adultos só em aparência, não sendo capazes de constituir uma vida própria; penso também nos pais e mães que obrigam filhos a seguir rumos e carreiras que lhes parecem as mais interessantes, deixando de ajudá-los a buscar caminhos que correspondam a seus próprios desejos e potencialidades. Penso ainda no caso de pais e mães que, cegos à responsabilidade e às capacidades já desenvolvidas pelos filhos, os podam ou deixam de apoiá-los, muitas vezes criando neles próprios a crença de que são incapazes de seguir suas vidas sem os pais. São abusos que não ocupam as páginas de jornais, nem as telas da TV ou do computador, mas que não deixam de estragar vidas pelo mundo afora.

 

E o que dizer de nós, professores, que também temos a atribuição de ajudar os sujeitos a se constituírem como sujeitos autônomos? Será que conseguimos sempre fazer jus a essa atribuição? Sob as aparências da “formação”, será que não resvalamos, muitas vezes, em práticas que ao invés de ajudar no desenvolvimento, atrelam o outro a nossos próprios interesses e projetos? Sabemos respeitar a provisória condição de dependência do outro, e trabalhar para ajudá-lo a se constituir como independente?  Será que conseguimos sempre escapar do bárbaro uso do outro mais frágil?  É a nossa mais básica obrigação.



Escrito por Escrito por Eide às 21h34
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A era da inexistência

"Ainda era confuso o estado das coisas do mundo, no tempo remoto em que esta história se passa. Não era raro defrontar-se com nomes, pensamentos, formas e instituições a que não correspondia nada de existente. E, por outro lado, o mundo pululava de objetos e faculdades e pessoas que não possuíam nome nem distinção do restante. Era uma época em que a vontade e a obstinação de existir, de deixar marcas, de provocar atrito com tudo aquilo que existe, não era inteiramente usada, dado que muitos não faziam nada com isso - por miséria ou ignorância ou porque tudo dava certo para eles do mesmo jeito - e assim uma certa quantidade andava perdida no vazio. (...)" (Ítalo Calvino. O cavaleiro inexistente. Trad. de Nilson Moulin, 5ª reimpressão, Companhia de Bolso, 2009, p. 31).



Escrito por Escrito por Eide às 12h21
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Quitanda

Empty vessels

Há uns 15 anos, estudando inglês num antigo manual para estrangeiros, encontrei um provérbio que para mim foi um achado, porque correspondia a algumas desconfianças que eu tinha: “Empty vessels make the most sound”. Passado tanto tempo, com mais experiência, posso perceber de maneira mais profunda a verdade dessas palavras. Minhas desconfianças se transformaram praticamente em certezas.

 

Onde estamos?

Aluguei Os outros numa locadora de Marília (cidade do interior de São Paulo, com cerca de 200 mil habitantes, em que tive algumas das primeiras noções referentes à minha própria exitência), e o atendente mostrou que havia dois DVDs na caixinha. Eu fiquei empolgada: “- Que legal! Tem extras!!!” Ele pareceu não ter me ouvido, porque foi me dizendo, como se tentasse me convencer da importância do disco sobressalente: “É bom ver o  extra, porque às vezes passa um trechinho do filme que não passou no principal.” Meio desanimada, tentei ainda alguma comunicação: “ – O que eu adoro são as entrevistas, quando tem.” Ele: “- Nossa, mas isso é raro. Ninguém gosta de extras.”

 

Seminário

Imagino que os leitores deste blog que se interessem pelo assunto estejam um pouco longe de São Paulo  - ;) -, e  os de São Paulo tenham outras prioridades. Mas deixo registrado que na próxima sexta-feira, dia 11 de junho, às 14:30 h, farei no Museu Paulista uma exposição de considerações baseadas no trabalho de catalogação dos documentos da  Coleção Marquês de Valença, intitulada: “Os encantos do arquivo e os trabalhos do historiador: reflexões a partir da coleção Marquês de Valença”. Foi um trabalho bastante árduo, mas profundamente instrutivo para mim. Tentarei comunicar isso.



Escrito por Escrito por Eide às 20h38
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Sempre pode piorar...

Quem já achava a Folha de S. Paulo um jornal ruim, talvez não imaginasse que pudesse piorar tanto. Tudo bem que colocou os textos em letra grande, facilitando a leitura pelos mais velhos e pelos fracos de visão, como eu. Mas supõe que estes sejam também fracos de cabeça. Afinal, qual o motivo para tanta letra em cor azul? Letras coloridas me lembram os tempos do primário, em que as generosas professoras se esmeravam em criar recursos para nos interessar pela escrita e pela leitura. Lembro-me que no colegial (atual ensino médio) já nos orgulhávamos por não mais precisar de letras coloridas para nos interessarmos por um texto. Dispensar completamente o lápis de cor e as canetinhas coloridas parecia gesto indispensável para certificar o nosso crescimento, com o abandono das comodidades e ilusões da infância.

Mas eis que hoje eu abro o jornal e vejo o nome do Jânio de Freitas em azul!!!! Isso não tem cabimento. O jornalista mais admirado pela ponderação e sobriedade de suas colunas, com o nome estampado em azul celeste! Me vem à mente o "celeste celestial" do "trem das cores" do Caetano Veloso. Coisa bonita, sem dúvida! Mas é uma boniteza muito diferente da que pertence singularmente ao Jânio de Freitas!! ele não merece isso, e nós, seus leitores, também não merecemos.

E o nome do novo caderno cultural? "Ilustríssima". Quando a gente pensava que o fundo do poço já tinha sido atingido com o nome "Mais!", vê que tinha se enganado redondamente. Nome pior, com textos mais curtos. Não li ainda, porque tá me faltando coragem. Mas é pouco provável que sejam mais densos.

Podem achar que estou exigindo demais de um jornalão como a Folha. Mas foi o caderno cultural desse jornalão - o Folhetim - que no final da década de 1980 começou a me despertar para os temas de ciências humanas. Muito mais do que a escola, os autores do Folhetim, com seus textos densos e complexos, me fizeram imaginar que um dia tudo aquilo para mim poderia ser mais compreensível, se eu buscasse leituras mais aprofundadas.

Que imaginação produz a "Ilustríssima"? O nome não traz bons presságios.

 



Escrito por Escrito por Eide às 16h37
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Solidão

Ele queria se encontrar. Procurou no google. Não achou.



Escrito por Escrito por Eide às 22h27
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"Esculpir o tempo" e a arte da leitura

 

Estive nas últimas semanas mergulhada na elaboração de um artigo mais longo, relacionado a um trabalho de pesquisa em história, e acabei não tendo cabeça para publicar nada neste espaço. Por isso fiquei bastante tempo ausente daqui.

Esse artigo, que envolve questões referentes a como escrever a história, sem suprimir a vitalidade dos personagens e dos acontecimentos, me levou a prestar uma atenção toda especial a um livro que o Sérgio estava lendo, do Tarkovski (diretor de que vi pouco, mas gosto do que vi), chamado Esculpir o tempo[1]. O título me fez imaginar imediatamente que deve haver, salvas as proporções,  uma afinidade entre o trabalho do historiador e o do cineasta, tal como o concebe o autor do livro. Afinal, parece-me, o esforço do historiador é justamente o de buscar, com os recursos da leitura e da escrita, entalhar essa espécie de matéria impalpável que é o tempo.

Aguardei com ansiedade a liberação do livro para minha leitura. E neste momento ainda não cheguei nem na metade, mas já transitei por passagens muito tocantes e que me farão, certamente, voltar ao início da obra.  Uma delas diz respeito à relação do crítico com a obra de arte. A visão de Tarkovski me parece admirável, e muito pertinente para a relação de qualquer um de nós com obras artísticas, e até para a leitura de obras ditas “científicas”. Eis as palavras do cineasta:

 

“A crítica tende a abordar seu tema com o objetivo de ilustrar uma concepção específica; com muito menos freqüência, infelizmente, ela já parte do impacto emocional vivo e direto da obra em questão. Para se alcançar uma percepção pura da obra de arte, é preciso ter uma capacidade de julgamento original, independente e ‘inocente’. Em geral, as pessoas buscam exemplos e protótipos conhecidos para verem confirmada a sua opinião, e a obra de arte é então avaliada em relação ou por analogia com as aspirações subjetivas ou com o ponto de vista pessoal dessas mesmas pessoas. (...)” (p. 50-51; destaque feito por mim)

 

Logo a seguir, ele cita este angustiante e lindo trecho do Walden, do Thoreau:

 

“As obras dos grandes poetas nunca foram lidas pela humanidade, pois somente os grandes poetas são capazes de lê-las. Elas só foram lidas da mesma maneira que as multidões lêem as estrelas, quando muito como astrólogos, não como astrônomos. Em sua maior parte, as pessoas aprenderam a ler para atenderem a alguma mesquinha conveniência, assim como aprenderam a fazer contas para manterem em dia sua contabilidade, sem serem enganadas em seus negócios; quanto a ler como um nobre exercício intelectual, trata-se de algo sobre o qual pouco ou nada sabem. No entanto, essa é a única forma possível de leitura no sentido mais elevado do termo; não aquela que nos acalenta como um luxo, ao mesmo tempo que entorpece as nossas mais nobres aptidões, mas aquela em que temos que nos colocar na ponta dos pés para ler, dedicando-lhe as melhores horas da nossa vigília.” (citado na p. 51)

 

Pode-se talvez ver numa passagem como essa um espírito anti-democrático. Mas não é isto o que está aí, porque o autor não se refere a grandezas e nobrezas sociais. São elevações de outra natureza. Acho que olhar assim só nos protegeria de uma angústia, não desfazendo a dúvida que a motiva: será que somos capazes de acessar as dimensões do real habitadas por um artista como Tarkovski, ou como Thoreau?



[1] Traduzido do inglês por Jefferson Luiz Camargo; 2ª ed., Martins Fontes, 1998.



Escrito por Escrito por Eide às 10h02
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Invasões macabras

Foi muito desconfortável ver imagens do rosto de Roberto Carlos depois da notícia da morte de sua mãe. Na verdade, eu tinha tido vontade de ver, quando soube da morte e ainda não tinham sido feitas fotos dele após a perda. Mas depois que vi fiquei me sentindo mal, porque  achando que ele merecia a privacidade de sua dor, como qualquer ser humano. Imagino que, num momento como esse, eu não vá querer ver nem olhos de estranhos. Quanto mais câmeras ligadas para me fotografar ou filmar... Claro que isso não acontecerá, porque não sou nem serei uma estrela, muito menos o Rei (sim, sou sua súdita) Roberto Carlos.  Mas posso imaginar  e sentir que, num momento limite como esse, ser fotografado, e ter sua imagem espalhada pelo mundo seja algo invasivo demais.

 

Do mesmo modo, depois da morte do Glauco, achei estranhas as imagens da confissão do rapaz que o matou - para repórteres, diante de câmeras televisivas - e também a foto dele enjaulado, com os dentes à mostra. Como ocorre agora no caso do luto do Rei, eu tinha tido curiosidade de ver o rosto do assassino, mas quando vi as imagens,  senti-me cúmplice de uma invasão macabra. Invasão que o Fantástico elevou à última potência ao transmitir entrevista com a viúva, apenas dois dias depois do assassinato!

Tem dores e desgraças que precisam ser muito resguardadas. A experiência diante dessas imagens faz sentir que algo dentro de nós impele a invadir, mas algo de nós também se perde, quando a invasão se consuma. Acho que é a dignidade da intimidade. Na perda desse algo tão essencial, acho que, sob as câmeras, celebridades e nós todos, seus voyeurs, nos irmanamos.



Escrito por Escrito por Eide às 20h55
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Khadji-Murát

Os conflitos entre russos e tchetchenos já causaram e ainda causam muita morte, mas incrivelmente também inspiraram criação da mais refinada.  Khadji-Murát, a história do chefe tchetcheno que passa para o lado dos russos em meados do século XIX, escrita por Tolstói - traduzida por Boris Schnaiderman e publicada recentemente pela Cosacnaify -, acho que mais do que merece os elogios que li em alguns veículos da chamada “grande imprensa”. Com uma aparente simplicidade, enseja a produção, no leitor, de emoções e reflexões inusitadas, a partir de uma delicada, refinadíssima observação das mentes humanas. Transcrevo um dos momentos do livro que mais me comoveram, e de um modo totalmente inesperado. É o momento do primeiro encontro do temido tchetcheno com os russos:

 

“Na frente, montando um cavalo de crina branca, vinha um homem de tcherkeska [espécie de paletó com cartucheiras][1]branca, de turbante sobre a papakha [chapéu de pele] e armas gravadas a ouro. Esse homem de aspecto imponente era Khadji-Murát. Acercou-se de Poltorátzki [comandante russo] e disse-lhe algo em tártaro. Poltorátzki ergueu as sobrancelhas e fez um gesto vago com as mãos, em sinal de que não o compreendia, e sorriu. Khadji-Murát respondeu-lhe com um sorriso, que surpreendeu Poltorátzki por sua bonacheirice infantil. Poltorátzki não esperava de modo algum que aquele terrível montanhês tivesse tal expressão. Contava encontrar um homem seco, taciturno, distante, e em vez disso via uma criatura simples, com um sorriso tão camarada, como se eles se conhecessem desde muito tempo. Somente uma coisa havia nele de peculiar: eram os seus olhos desmesuradamente arregalados, que se fixavam nos olhos dos demais, com uma expressão atenta, penetrante e serena.” (p. 62-63)

 

Entre as muitas passagens notáveis, destaco ainda as caracterizações que ele faz das mentes dos comandantes russos, especialmente do czar Nicolai Pávlovitch (Nicolau I). Todo o trecho do livro em que é focalizado esse personagem contém embutidos muitos ensinamentos a respeito da política. Reproduzo a parte em que, de modo certeiro, Tolstói explicita o mal causado pela lisonja, no espírito do lisonjeado. É mostrada uma extrema estupidez na mente do cruel czar russo. E ela é em parte explicada assim:

 

“(...) A lisonja permanente, asquerosa e sem rebuços, dos que o cercavam, reduzira-o a tal estado que não via mais as suas contradições, e não fazia concordar os seus atos e palavras com a realidade, a lógica ou sequer com o comezinho bom senso, e estava plenamente convencido de que todas as suas disposições se tornavam inteligentes, justas e coerentes entre si, pelo simples fato de provirem dele.” (p. 139-140)

 

Do Tolstoi, eu só tinha lido A morte de Ivan Ilitch. Então, não posso falar do significado de Khadji-Murát na obra toda do gênio russo. O tradutor Boris Schnaiderman talvez esteja certo, quando diz que se trata de “um dos momentos máximos atingidos por Tolstói ficcionista” (p. 5).  Momento máximo ou não, essa obra faz é me encaminhar para as outras, do mesmo autor.

 

Uma afirmação do tradutor com que tendo a concordar é a de que Khadji-Murát é uma história que “tem algo de violentamente cinematográfico, as imagens nela parecem já dispostas com vistas ao então novíssimo gênero”. (p. 5)  Pode ser, tendo em vista a impressionante força das imagens e dos sons que saltam das páginas!

 

Por fim, não posso deixar de dizer que o livro me fez lembrar de falas de participantes do Big Brother, de uns tempos atrás. Neste ano, eu tive a firmeza de alma de não ver nada do programa, nem sequer uma entrevista de um ex-bbb. Mas eu me lembro de que, até o ano passado, eles gostavam muito de se dizerem “guerreiros”. Sempre fiquei intrigada com isso. Agora estou menos. Em Khadji-Murát, vemos que a mente guerreira é oca.



[1] Esta e a seguintes tradução foram reproduzidas do glossário que se encontra no final da edição mencionada.



Escrito por Escrito por Eide às 09h58
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Aos valiosos tradutores

Há pouco tempo escrevi aqui um parágrafo a respeito do blog de Denise Bottmann. A descoberta daquele espaço foi algo muito emocionante para mim, pois até então só tinha visto o nome da tradutora nas folhas de rosto de livros preciosos, traduções de obras estrangeiras que se tornaram referências importantes em minha trajetória. De repente, a internet me facultava o acesso a textos da própria Denise!

 

Desde aquele momento venho pensando em fazer um texto (pequeno, que seja) sobre a grandeza dos bons tradutores. Porque a descoberta trouxe ao primeiro plano de minha mente algo que estava no fundo, e bem estabelecido: o reconhecimento por essas pessoas que, com sua competência, nos dão acesso a obras fundamentais de autores estrangeiros, ajudando-nos em nosso trabalho e em nosso viver. Lembro-me de que nas aulas da minha graduação em Ciências Sociais era comum ouvir alertas dos professores a respeito de más traduções de obras clássicas. Havia até recorrente repetição – meio pedante, às vezes parecia – do dito “traduzir é trair”, antes da constatação da impossibilidade de seguir em frente sem as traduções, consideradas, então, males necessários. Pouquíssimos e tímidos foram os comentários a respeito da qualidade de traduções a que tínhamos acesso. Talvez por rigor. Afinal, não se fazia cotejamento da tradução com o original, para saber da fidelidade da versão. Mas em tais atitudes talvez residisse uma exigência um tanto arrogante, resultante talvez da vontade de que o autor original escrevesse na nossa própria língua, igualando-se a nós e eliminando as barreiras que nos dificultavam o acesso a seus pensamentos.

 

Acho que não é indispensável, para confiarmos numa tradução, o cotejo com o original. Com a experiência de leitura e releitura, é possível notar a seriedade do trabalho realizado, mesmo sem fazer a comparação. Podemos sentir, nas frases que lemos, o esforço, a competência e a honestidade de quem traduziu. Se nos abrirmos para notar esse trabalho, um irreprimível sentimento de gratidão se forma em nosso espírito, pelo acesso que nos é facultado a conteúdos de outro modo inalcançáveis. Digo isto pensando, além de em Denise Bottmann - que verteu, entre outros, o muito reverenciável historiador E. P. Thompson - em nomes de outros tradutores de textos de autores estrangeiros que foram marcos em minha formação, e que se tornaram referências basilares para mim. Menciono particularmente três deles, pela importância e pela beleza dos textos traduzidos: Roberto Raposo (tradutor de A condição humana, da Hannah Arendt), Sérgio Paulo Rouanet (de textos de Walter Benjamin, com destaques para: “Experiência e pobreza”, “O narrador” e “Sobre o conceito de história”) e Therezinha G. G. Langlada (tradutora de A condição operária e outros estudos sobre a opressão, coletânea de textos de Simone Weil organizada por Ecléa Bosi).

 

Transcrevo a seguir pequenas passagens desses textos que me são muito caros, em homenagem aos tradutores.

 

Da tradução de A condição operária e outros estudos sobre a opressão, por Therezinha G. G. Langlada:

 

“Existe uma condição social inteira e continuamente presa ao dinheiro, que é a do assalariado, sobretudo desde que o salário por empreitada obriga cada operário a ter sua atenção sempre voltada para a contagem dos tostões. Nessa condição social é que a doença do desenraizamento é mais aguda. Bernanos escreveu que nossos operários não são, apesar de tudo, imigrantes, como os de M. Ford. A principal dificuldade social da nossa época vem do fato de que eles o são, em um certo sentido. Embora geograficamente permanecendo num local, moralmente foram desenraizados, exilados e readmitidos, por tolerância, como carne de trabalho. O desemprego, é claro, funciona como um desenraizamento de segundo grau. Eles não estão em suas casas nem nas fábricas nem nas suas moradas, nem nos partidos e sindicatos – que se dizem feitos para eles – nem nos lugares de prazer, nem na cultura intelectual, se tentarem assimilá-la.

Pois o segundo fato de desenraizamento é a instrução, tal como é entendida hoje. O Renascimento provocou por toda parte um corte entre a gente culta e a massa; mas, separando a cultura da tradição nacional, pelo menos a mergulhava na tradição grega. Depois disso, os laços com as tradições nacionais não foram renovados, mas a Grécia foi esquecida. Resultou uma cultura que se desenvolveu num meio muito restrito, separado do mundo, numa atmosfera confinada, uma cultura consideravelmente orientada para a técnica e influenciada por ela, muito tingida de pragmatismo, extremamente fragmentada pela especialização, completamente desprovida ao mesmo tempo de contato com este nosso universo e de abertura para o outro mundo.

(...)

O que hoje se chama de instruir as massas é pegar esta cultura moderna elaborada num meio tão fechado, tão deteriorado, tão indiferente à verdade, tirar dele tudo o que ainda pode conter de ouro puro, operação que se chama divulgação, e enfiar o resíduo, do jeito que está, na memória dos infelizes que querem aprender, como se leva a comida ao bico dos passarinhos.”

 

“Seria vão voltar as costas ao passado para só pensar no futuro. É uma ilusão perigosa acreditar que haja aí uma possibilidade. A oposição entre o futuro e o passado é absurda. O futuro não nos traz nada, não nos dá nada; nós é que, para construí-lo, devemos dar-lhe tudo, dar-lhe nossa própria vida. Mas para dar é preciso ter, e não temos outra vida, outra seiva a não ser os tesouros herdados do passado e digeridos, assimilados, recriados por nós. De todas as necessidades da alma humana não há outra mais vital que o passado.” (p. 349-350 e p. 353-354, respectivamente, da primeira edição, feita pela Paz e Terra em 1979)

 

Da tradução de A condição humana, feita por Roberto Raposo:

 

“Dada a sua suma permanência, as obras de arte são as mais intensamente mundanas de todas as coisas tangíveis; sua durabilidade permanece quase isenta ao efeito corrosivo dos processos naturais, uma vez que não estão sujeitas ao uso por criaturas vivas – uso que, na verdade, longe de materializar sua finalidade inerente (como a finalidade de uma cadeira é realizada quando alguém se senta nela), só pode destruí-la. Assim, a durabilidade das obras de arte é superior àquela de que todas as coisas precisam para existir; e, através do tempo, pode atingir a permanência. Nesta permanência, a estabilidade do artifício humano, que jamais pode ser absoluta por ser o mundo habitado e usado por mortais, adquire representação própria. Nada como a obra de arte demonstra com tamanha clareza e pureza a simples durabilidade deste mundo de coisas; nada revela de forma tão espetacular que este mundo feito de coisas é o lar não-mortal de seres mortais. É como se a estabilidade humana transparecesse na permanência da arte, de sorte que certo pressentimento de imortalidade – não a imortalidade da alma ou da vida, mas de algo imortal feito por mãos mortais – adquire presença tangível para fulgurar e ser visto, soar e ser escutado, escrever e ser lido.” (p. 181, da 4ª edição, feita pela Forense Universitária, do Rio de Janeiro, em 1989. Destaque feito por mim.)

 

Da tradução de “Experiência e pobreza”, por Sérgio Paulo Rouanet:

 

“Em nossos livros de leitura havia a parábola de um velho que no momento da morte revela a seus filhos a existência de um tesouro enterrado em seus vinhedos. Os filhos cavam, mas não descobrem qualquer vestígio do tesouro. Com a chegada do outono, as vinhas produzem mais que qualquer outra na região. Só então compreenderam que o pai lhes havia transmitido uma certa experiência: a felicidade não está no ouro, mas no trabalho. Tais experiências nos foram transmitidas, de modo benevolente ou ameaçador, à medida que crescíamos: ‘Ele é muito jovem, em breve poderá compreender’. Ou: ‘Um dia ainda compreenderá’. Sabia-se exatamente o significado da experiência: ela sempre fora comunicada aos jovens. De forma concisa, com a autoridade da velhice, em provérbios; de forma prolixa, com a sua loquacidade, em histórias; muitas vezes como narrativas de países longínquos, diante da lareira, contadas a pais e netos. Que foi feito de tudo isso? Quem encontra ainda pessoas que saibam contar histórias como elas devem ser contadas? Que moribundos dizem hoje palavras tão duráveis que possam ser transmitidas como um anel, de geração em geração? Quem é ajudado, hoje, por um provérbio oportuno? Quem tentará, sequer, lidar com a juventude invocando sua experiência?

Não, está claro que as ações da experiência estão em baixa, e isso numa geração que entre 1914 e 1918 viveu uma das mais terríveis experiências da história. Talvez isso não seja tão estranho como parece. Na época, já se podia notar que os combatentes tinham voltado silenciosos do campo de batalha. Mais pobres em experiências comunicáveis, e não mais ricos. Os livros de guerra que inundaram o mercado literário nos dez anos seguintes não continham experiências transmissíveis de boa em boca. Não, o fenômeno não é estranho. Porque nunca houve experiências mais radicalmente desmoralizadas que a experiência estratégica pela guerra de trincheiras, a experiência econômica pela inflação, a experiência do corpo pela fome, a experiência moral pelos governantes. Uma geração que ainda fora à escola, num bonde puxado por cavalos viu-se abandonada, sem teto, numa paisagem diferente em tudo, exceto nas nuvens, e em cujo centro, num campo de forças de correntes e explosões destruidoras, estava o frágil e minúsculo corpo humano.” (p. 114-115, do vol. 1 das Obras escolhidas de Walter Benjamin, editadas pela Brasiliense, em 1987)

 



Escrito por Escrito por Eide às 11h10
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